Jesus morreu numa cruz ou numa estaca?

Acreditamos que o objeto em que Jesus foi pendurado era uma estaca com uma viga transversal. Em outras palavras, uma cruz. As Testemunhas de Jeová dizem que Jesus foi pendurado numa estaca simples, sem viga transversal, porque esse era o sentido original da palavra grega staurós. Mas não devemos nos apegar apenas ao sentido lexical da palavra.

Acima de tudo, o contexto histórico deve ser levado em conta. As palavras assumem sentidos diferentes de acordo com a época e o costume. Como exemplo, considere a palavra lanterna. Veio do latim lanterna, archote, lampião. Originalmente era um objeto com material combustível que era acendido para iluminar. Hoje, existem lanternas à pilha. Mas mesmo assim, quando usamos a palavra “lanterna”, precisamos considerar o contexto histórico e cultural. Será que estamos falando das lanternas que são soltas em rios?lanterna-1

Ou será que estamos falando das lanternas que flutuam no ar?

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De acordo com o país, os costumes e o fundo histórico, a mesma palavra pode mudar de sentido. Visto sob essa luz, o mesmo acontece com staurós: originalmente significava “estaca”, mas também passou a significar “paliçada”, “cruz” e até outros objetos de madeira.

ARGUMENTOS LINGUÍSTICOS VERSUS HISTÓRICOS

A tese das Testemunhas de Jeová, que se baseia apenas no argumento linguístico, afirma que staurós só foi significar “cruz” na época de Constantino (que foi imperador do Império Romano entre os anos de 306 a 337 d.C.). Mas será que temos provas que staurós evoluiu para outros tipos de significados antes de Constantino? Na verdade, há farta documentação histórica que mostra que já significava “cruz” bem antes de Jesus ser condenado à morte.

Era costume que o homem condenado carregasse a sua própria cruz após flagelação para o local da crucificação fora das muralhas da cidade. O condenado não levava a cruz inteira, pois esta era muito pesada. Ele levava apenas o patibulum (viga transversal). O patibulum, pesando 34 a 57 Kg, era colocado ao longo da nuca da vítima e equilibrado ao longo de ambos os ombros. Os braços, estendidos, eram amarrados à barra. A procissão para o local da crucificação era liderada por uma guarda militar romana completa, encabeçada por um centurião.  Um dos soldados carregava um cartaz (Título) em que eram exibidos o nome e o crime do condenado. Mais tarde, o Título seria pregado ao topo da cruz. A guarda romana só deixaria a vítima quando tivessem certeza de sua morte. Mas como sabemos que o patibulum era usado mesmo antes da época de Jesus?

Um texto de Plauto acha-se em Mostellaria, livro I, 1, 56, que diz textualmente: “Ita te ferabunt patibulutum per vias stimuli”. (“Deste modo carregaste teu patibulum pelas ruas sob açoites”). Mais adiante: “Tibi esse pereundum extra portam dispansis manibus, patibulum quom habebis” (“A ti, que hás de morrer fora da porta, de mão estendida, depois de trazeres o patibulum”).  O mesmo autor clássico Plauto em sua obra Carbonaria, fragmento 2, faz outra referência à segunda peça da cruz. “Patibulum ferat per urben deinde adfigatur cruci” (“O patibulum era carregado através da cidade; em seguida pregado na cruz”). Essas palavras foram escritas bem mais de um século e meio antes de Cristo. 

Tertuliano, em fins do século II, em Adversus Nationes, livro II, afirma: “Tota crux impatur cum antenna scilicet sua, et com illo sedilis excessu”. (“Toda cruz, assim suspensa com sua verga atravessada, e nela sobressai o ‘assento'”).  Temos assim, nas citações acima, primeiro o testemunho de um pagão, depois o de um “Pai da Igreja”. Ambos viveram no tempo em que se crucificavam pessoas, e testemunharam a forma da cruz.

Perto de dez dos melhores léxicos gregos são unânimes em definir staurós como: 1. pau; 2. paliçada; 3. estaca; 4. patíbulo; 5. instrumento de suplício; 6. cruz. Não seria nada razoável pretender que a palavra tenha apenas UM desses significados. Da mesma forma, o verbo σταυροω (stauroô), significa “levantar uma paliçada”, “proteger com paus”, “empalar”, “crucificar”. “Tau” é a designação grega da letra T. E o T assemelha-se à cruz. Existe até um tipo de cruz exatamente com essa forma, ou seja, a forma de um T, ou, no grego, de um TAU. O verbo sTAUroô, etimologicamente significa “colocar num TAU” (isto é, num T). A palavra “tau” está dentro de staurós e stauroô. Daí o sentido de “crucificar”. A cruz, portanto, evoluiu, da simples estaca para o instrumento de tortura com duas peças.

OUTRAS PROVAS HISTÓRICAS

Uma prova indireta e circunstancial de que Jesus foi pregado numa cruz é o Grafite de Alexamenos, (também conhecido como grafite blasfemo) do século 200 d.C. Trata-se de uma inscrição gravada em gesso sobre uma parede nas proximidades do Palatino, em Roma, hoje encontrado no Museu Antiquário do Palatino. É uma das primeiras representações gráficas da crucificação de Jesus. A imagem representa uma figura crucificada de corpo humano e cabeça de burro. No canto superior direito da imagem aparece algo que já foi interpretado como a letra grega upsilon ou uma cruz de tau. Há um homem jovem à esquerda da figura crucificada, aparentemente representando o tal Alexamenos; o homem levanta a mão em um gesto que possivelmente sugere adoração. Abaixo da cruz aparece um rótulo escrito em grego: Αλεξαμενος ϲεβετε θεον. Assim, a inscrição seria traduzida como “Alexamenos adora [seu] Deus”, ou “Alexamenos adorando Deus”. Embora o grafite seja uma zombaria dos pagãos feita aos cristãos, mostra que já era de conhecimento comum que o instrumento de tortura de Cristo tinha o formato de uma cruz.

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A inscrição em grego diz: “”Alexamenos adorando Deus”

Outros achados arqueológicos também mostram que a cruz era um meio de morte na época de Jesus.

Cruz em catacumbas cristãs

Uma catacumba do primeiro século foi descoberta pelo arqueólogo P. Bagatti no Monte das Oliveiras, e ela contém inscrições que indicam claramente que era utilizada “pelos primeiros cristãos em Jerusalém.” … A “pedra principal”, encontrado perto da entrada da catacumba possui uma inscrição com o sinal da cruz. …Os arqueólogos encontraram evidências datando claramente as duas catacumbas para o primeiro século d.C., com o achado posterior de moedas cunhadas pelo governador Varius Gratus na virada do milênio (até 15/16 AD). Fica evidente que ambas as catacumbas eram usadas para enterros até a primeira metade do primeiro século d.C., vários anos antes de o Novo Testamento ser escrito ” Fonte: Jerusalém Christian Review, Volume 9, Internet Edition, Issue 2 (Veja também leaderu.com/theology/burialcave.html, de 2 de janeiro de 2015)

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Pedra com inscrição em forma de cruz numa catacumba usada por cristãos

 Cruz numa casa em Herculano (Atual Nápoles)

Uma casa em Herculano, enterrado nos 79 d.C. pela erupção do Monte Vesúvio, contém uma marca de uma cruz romana tradicional. (Maier, PL, ” First Christians: Pentecost and the Spread of Christianity” Harper & Row: New York, 1976, p.141)

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Cruz numa casa em Herculano: 79 d.C.

O “ESTAUROGRAMA”

O estaurograma  é uma imagem gráfica precoce de Jesus na cruz, criado através da sobreposição tau (Τ) em Rho (Ρ). Isso remonta mais cedo do que 200 d.C., e foi utilizado em manuscritos bíblicos, como o P75 papiro Bodmer Novo Testamento nas palavras gregas para “cruz” (stauros) e “crucificar” (stauroō).

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“Estaurograma” usado em manuscritos antigos do Novo Testamento

ARGUMENTOS BÍBLICOS

A crucificação de Pedro

Jesus já havia dito que os discípulos seriam perseguidos e mortos (João 16:1, 2). Depois que Cristo morreu e ressuscitou, Ele se reencontrou com Pedro e, no final do diálogo, disse: “Em verdade, em verdade te digo que, quando eras mais moço, tu te cingias a ti mesmo e andavas por onde querias; quando, porém, fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres. Disse isto para significar com que gênero de morte Pedro havia de glorificar a Deus. Depois de assim falar, acrescentou-lhe: Segue-me” (João 21:18-19)

“Hegessipo diz que Nero procurava fatos contra Pedro para condená-lo à morte. Quando o povo percebeu isso, rogaram a Pedro, com muita insistência, para que ele fugisse da cidade. Pedro no fim foi persuadido pelos importunos pedidos e preparou-se para a fuga. Porém, ao chegar ao portão da cidade, viu o Senhor Jesus Cristo vindo ao seu encontro, a quem Pedro, adorando, disse: — Senhor, para onde vais tu? — Ao que Ele respondeu dizendo: — Estou voltando para ser crucificado. — Assim Pedro, percebendo que com essas palavras o Senhor se referia ao martírio do qual ele estava fugindo, voltou para a cidade. Jerônimo diz que ele foi crucificado, com a cabeça para baixo e os pés para o alto a pedido dele mesmo porque era — disse ele — indigno de ser crucificado do mesmo modo e jeito como o fora o Senhor.” (John Foxe, O Livro dos Mártires, p. 21, 22).

O USO DA CRUZ PELOS ESTUDANTES DA BÍBLIA

Os Estudantes da Bíblia concordam, porém, que a cruz, qual mero objeto, em hipótese alguma deve ser adorada. Mas qual símbolo da mensagem de Cristo, deve ser lembrada:

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.” (1 Cor 1:18)

“Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.” (Gálatas 6:14)

“Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo.” (Fil 3:18)

E o próprio JESUS disse: “E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.” (Marcos 8:34)

Por isso,  os Estudantes da Bíblia usam o emblema da Cruz Coroada para representar que, sem a vida de sofrimento cristão, não se recebe a coroa da vida imortal.

Para informações adicionais sobre os tipos de cruzes usadas na crucificação pelos romanos, queira ver este vídeo:

5 comentários em “Jesus morreu numa cruz ou numa estaca?

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  1. Excelente matéria!
    Duas passagens na Bíblia também me intrigam, que são as de Mateus 27:37 ,”Puseram-lhe por CIMA DA CABEÇA a sua acusação escrita: este é Jesus, o Rei dos judeus” e João: 20. 25: “Diziam-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Ele, porém, lhes respondeu: Se eu não vir o sinal DOS CRAVOS NAS MÃOS, e não meter a mão no seu lado, de maneira nenhuma crerei.
    Dizer “por cima da cabeça” eu entendo que não foi “por cima das mãos”, mas pode-se argumentar que a cabeça é a parte mais alta do corpo, por isso usou-se essa expressão, embora eu, particularmente não aceito. Mas a expressão “os cravos nas mãos” não deixa nenhuma dúvida sobre ter sido pregado numa cruz porque não posso imaginar o contrário, embora seja possível. Mas esta matéria que você postou esclarece muita coisa.

    Curtido por 1 pessoa

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